Publicado em Textos

A arte de ser feliz

8270738736_558d1574ae_b_largeHouve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era numa época de estiagem, de terra estrelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas garotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz.

Ás vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontrou nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com  pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre  me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes um galo canta. Ás vezes um avião passa. Tudo esta certo, no seu lugar, cumprindo com o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles. Escolha o seu sonho.

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